Escutar é mais transformador que tentar solucionar - Mina
 
Suas Emoções / Textão

Escutar é mais transformador que tentar solucionar

A psicóloga Jamille Façanha explica como a escuta genuína a quem desabafa pode aliviar o peso da dor e fortalecer vínculos de cuidado

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Você já se pegou tentando animar alguém que estava triste dizendo “vai passar”? Ou sugeriu uma solução rápida, como “tenta pensar em outra coisa”? Ou “se eu fosse você, resolveria assim”? Você está longe de estar só. A maioria de nós aprendeu que amar é tentar aliviar a dor do outro. Mas e se eu te dissesse que, muitas vezes, o maior gesto de amor é simplesmente calar?

Quando alguém divide a sua dor com a gente, não está necessariamente pedindo uma solução. Muitas vezes, quer apenas ser ouvida, sem pressa, sem julgamentos, sem a necessidade de uma resposta imediata. Mas é natural do ser humano querer aliviar o sofrimento de quem ama. Diante de um desabafo, é comum que a nossa primeira reação seja buscar soluções, oferecer conselhos ou tentar suavizar o que está sendo sentido. Essa intenção é nobre e vem de um lugar de carinho e cuidado. Ninguém faz por mal; queremos ajudar porque nos importamos. E isso é louvável. Mas, ao tentar consertar, podemos acabar, sem querer, invalidando.

Vivemos em um mundo acelerado, onde até sentir por muito tempo incomoda

Na tentativa de aliviar o sofrimento do outro, podemos provocar o efeito contrário: fazer com que ele se sinta errado pelo que está sentindo Em vez de acolher, acabamos criando um ambiente onde a vulnerabilidade parece incômoda – até indesejada. Aos poucos, quem sofre pode se retrair, sentindo-se incompreendido, sozinho em sua dor. E aquilo que começou como um sofrimento emocional vai se transformando em uma solidão silenciosa, porque ninguém parece disposto a permanecer ao seu lado exatamente onde dói.

A verdade é que nem toda dor pode ser resolvida de imediato. Algumas dores são de longo prazo, fruto de processos complexos, e não há uma fórmula mágica para fazê-las desaparecer. Pense na dor do luto, de uma desilusão profunda ou de um período de incertezas. São sentimentos que, por sua própria natureza, demandam tempo, espaço e, mesmo assim, não se “resolvem”. Elas se integram, com o tempo, à biografia da gente. E, para isso, precisam ser sentidas. Apressar esse processo pode parecer cuidado, mas é pressão. 

Vivemos em um mundo acelerado, onde até sentir por muito tempo incomoda. Há um certo desconforto coletivo com o sofrimento. E não é por mal. Porém, mesmo com a melhor das intenções, isso pode nos afastar da escuta genuína. Aquele jeito de ouvir que não apressa, não explica e não tenta resolver, apenas acolhe.

Então, o que podemos oferecer em vez de soluções? Podemos oferecer o que a psicologia relacional tanto valoriza: presença. Em seu livro “A coragem de ser imperfeito”, Brené Brown, destaca a importância da conexão e da empatia. Ela argumenta que quando nos permitimos estar vulneráveis e somos recebidos com empatia, a sensação de pertencimento se fortalece. A pessoa não se sente sozinha. A dor, mesmo que não seja “resolvida”, é partilhada e, de alguma forma, aliviada em seu peso. É como se a carga se dividisse, e a pessoa ganhasse força para seguir adiante – não porque a dor sumiu, mas porque ela encontrou um lugar para ser expressa e aceita.

A escuta genuína é um convite para que o outro se sinta visto, ouvido e validado exatamente como está. É um ato de generosidade que dispensa a necessidade de oferecer respostas e abraça a arte de simplesmente estar ali. É o espaço seguro onde a dor pode existir sem ser questionada. 

A dor pode não passar, mas encontra um lugar onde pode respirar

Carl Rogers, psicólogo humanista que revolucionou a forma como entendemos a escuta terapêutica, dizia que, quando alguém realmente nos ouve, sem julgamentos, algo profundo acontece: começamos a nos enxergar com mais clareza. É sobre criar um espaço seguro onde a vulnerabilidade pode ser exposta sem medo de ser avaliada ou corrigida. Ser ouvido dessa maneira já é terapêutico por si só. Quando somos ouvidos com presença, sem julgamento ou tentativa de ajuste, algo em nós se reorganiza. A dor pode não passar, mas encontra um lugar onde pode respirar. 

A escuta que cura é aquela que nos diz: você não está só. Ela não chega com a expectativa de melhorar o humor, nem com fórmulas prontas. Apenas abre espaço. E isso é muito mais poderoso do que parece. Ao escutar alguém de verdade, nos tornamos testemunhas do que ela vive. E ser testemunhado é um dos atos mais reparadores da experiência humana. É como dizer: eu te vejo, eu estou aqui e sua dor tem lugar aqui comigo. 

Na próxima vez que alguém te contar uma dor, respire fundo. Antes de falar, pergunte-se: o que essa pessoa precisa agora é de um conselho… ou de um colo? Escutar é um ato de amor maduro. E talvez o mais transformador deles.

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